Como ficou claro no post da daminha, nós já estamos de volta ao país. Chegamos já faz algum tempo, suficiente para rever quase todos os amigos, uma parte da família (a da daminha, a minha não mora em São Paulo) e começar a nos readaptar ao Brasil. E essa é a parte triste. Esse tempo lá fora, por menor que tenha sido, nos ajudou a por o Brasil em perspectiva, a ver muitas coisas a que nos acostumamos, mas que não deveríamos. Mal cheguei e indo para a universidade vi um assalto à mão armada no trânsito. Liguei a TV e vejo o Rio MAIS uma vez, e bota ênfase neste mais, sitiada pela violência. Denúncias de corrupção em todas as esferas possíveis que nos deixa até tontos. Uma moça sendo atacada e expulsa de uma universidade pelo que vestiu. E isso tudo em um curtíssimo espaço de tempo. Chega a ser cômico comparar noticiários daqui e da lá, os daqui são devotados a no mínimo 80% a noticias negativas, e todas muito pesadas, são acidentes sem fim, enchentes, atos de violência, denúncias, os problemas de lá são muito mais tranquilos. As notícias negativas são quase sempre as econômicas e internacionais. Tem algumas denúncias, mas não se comparam com as nossas, os acidentes são em uma quantidade muito menor, e a quantidade de notícias neutras ou positivas são muito maiores, como por exemplo as coberturas de eventos. E esses eventos são algo que devo voltar a comentar por aqui.
Me adaptei muito bem à França, conseguiria viver tranquilamente naquela cultura. Não são tão formais quantos os povos saxãos, mas não são exageradamente informais como nós brasileiros. Não me agrada esse nosso exagero, muita vezes acho que isso ajuda a gente a colocar debaixo do tapete muito dos nossos problemas. Eles são um pouco mais rígidos que os paulistanos, e isso foi perfeito para mim. Muitos dos preconceitos que sempre escutei, e tive em relação aos franceses, e parisienses, se mostraram falsos. O mais incrível foi ver outros brasileiros batendo nestas teclas, em achar eles um povo arrogante e chato. Minha experiência foi ótima, fiz amigos muito rapidamente, meu orientador foi perfeito. E as rudezas que encontrei não foram nem piores, nem mais frequentes do que as que vivenciava em São Paulo.
Isso tudo não quer dizer que é um país perfeito, é claro, tem enormes problemas. Eles vendem uma saúde gratuita para o mundo que está longe de ser verdadeiramente gratuita, como eu descobri da pior forma. Tudo que sabemos sobre burocracia aprendemos com eles, e acreditem, eles guardaram alguns segredos. Até hoje estou sofrendo com a infame burocracia francesa. Eles estão tendo que lidar com uma forte massa imigrante, que resiste a aceitar a cultura do país. Não tivemos tempo para julgar de verdade se essa resistência é justificada ou não. Principalmente por esse assunto ser complicado, já que esses imigrantes foram muito marginalizados (e aparentemente ainda são).
De qualquer forma, se tivesse uma oportunidade de verdadeiramente me mudar de volta para lá, mudaria em definitivo. Isso exclui pós-docs que duram no máximo dois anos e depois tenho que voltar de novo. Mas definitivamente, eu me mudaria sem pestanejar. Do Brasil só quero os meus amigos, a minha família. Não tenho a gana de tentar ajudar a melhorar esse país. E está sendo difícil me dessensibilizar (nem sei se quero) a todos os nossos problemas. O que ficou dessa experiência é que aceitamos muitas coisas que jamais deveriam ser aceitas. Deixamos nossos problemas chegarem a um nível intolerável e aprendemos a viver dessa forma. E eu não estou conseguindo mais viver assim.


é…ver o brasil quando se vêm de fora é sempre um choque. mas é nosso país, temos que continuar tentando mudar as coisas não?!
abs!
Mas cansa, cansa tanto, ainda mais por não ver nem em um futuro não tão próximo a solução. Tanto que tendo uma chance real, concreta, eu não pensaria duas vezes antes de voltar para lá em definitivo.
Meu caro Bob,
Vamos começar pelas futilidades antes de atacar o assunto verdadeiro. “On a retourné” é lindo, mas incorreto
Me lembrou uma expressão caricatural (embora usada por algumas pessoas com [muito] pouca cultura): “on est reviendu”. Uma forma correta de seu título, seria “on est revenu”. Note que o uso de “on” é como o uso de “a gente” aqui: é correto na língua falada, mas na escrita é relativamente familiar. Concluindo: eu teria sugerido “nous sommes revenus”. Ah, um detalhe: “on a retourné” significa na verdade “a gente tem virado” (virado o que? eis a pergunta…). Fim de aula
Voltando ao assunto, eu imagino bem o que você sente. Apesar das aparências (e do sonho comum) a França não é um paraíso. A bureaucracia, eu posso confirmar, é o pior do Francês. Mas tem muitos outros defeitos que talvez você não enxergou na sua curta estadia e que você encontrará facilmente: intolerancia, falta de tato e diplomacia, falta de consenso, agressividade verbal (e às vezes física),… Eu não vou listar todo o que me passa pela cabeça, porque eu riscaria pintar um Francês típico meio caricatural. Temos algumas qualidades também (quando eu lembrar, falo quais…) .
Enfim, o que quis dizer é que nenhum povo é perfeito. Cada um suas qualidades e seus defeitos.
Cheguei no Brasil faz alguns anos, e fiquei amaravilhado pelo que via. Hoje eu fico me perguntando porque não consigo mais ver as coisas da forma que as vi no início. Me apaixonei pelas pessoas. Pela pluralidade. Pela variedade. Pelas diferenças que se agregam, no final, numa cultura única e linda. Pelos lugares. Pensava: Um país lindo com pessoas lindas.
Os anos passaram… E hoje eu tentei limitar meu desejo permanente de criticar o que vejo. Criticar a corrupção. Criticar o jeito de dirigir. Criticar a falta de respeito. Criticar a violencia. Criticar o famoso “jeito brasileiro” que afinal não passa de uma bricolagem de curto prazo, quase como jogar a sujeira por debaixo do tapete. Criticar o jeito desleixado. Criticar a falta de respeito do meio ambiente: o que adianta ter energias limpas e vender créditos de carbono quando vejo o Carioca mijar na rua, sobre o ônibus, o poste, o muro (parece cachorro!) e jogar seu lixo assim no chão como se ninguém tinha o ensinado que existem lixeiras (infelizmente não conheço as pessoas das outras regiões, mas sabe como é: o estrangeiro chega e define o país pelos lugares que visita, ou seja: Rio de Janeiro deve representar o Brasil para monte de pessoas lá fora). Eu tento não criticar, pelo menos por respeito de minha esposa que não merece ouvir isso… Mas é difícil.
Cheguei e acreditei no Brasil. Acreditei no crescimento. Acreditei que tudo ia melhorar… Hoje não sei mais… Talvez as coisas melhorem… daqui 20-30 anos… talvez mais… ou talvez não.
Me lembro que no início, eu perguntava porque o brasileiro parecia ter vergonha de seu país… Afirmava que era ridículo, que o país estava legal e as pessoas também… Hoje entendo melhor. Não estou com vergonha, porque não sou (e nunca serei) brasileiro. Mas estou com pena.
Porque, como falou o “Bold Larry”, você não podem desistir de querer melhorar a situação. Porque apenas vocês, brasileiros, podem mudar a situação. Parar com a corrupção, parar com o desrespeito das leis, parar com a “bricolagem” e fazer as coisas com sério e dedicação. Sei que todo mundo não se encaixa nos padrões ruins, sei que tem boa vontade por aí, só que também sei – por experiencia própria – que a boa vontade muitas vezes apaga com o tempo e que é muito mais fácil cair do “lado escuro da força” de que manter os padrões de ética.
Porque, honestamente, se o Brasil fosse o país que tem potencial de ser, seria provavelmente o país mais agradável de se viver no mundo… E ninguém teria vontade de sair do país, pelo contrário: recusariam-se as pessoas de fora
Abraços.
Cal, hehe, se o meu português escrito já é duvidoso, sou da área de exatas, meu francês é lastimável. Mas vou avisar a minha corretora multilingui (daminha) que ela deixou passar esse erro rsrsrsrs.
Na verdade eu vi sim alguns desses defeitos dos franceses que você comentou, e posso afirmar que esses comportamentos não são tão alienígenas aqui em São Paulo. E o que notei é, que com a minha volta, os defeitos do Brasil ficaram mais gritantes. Principalmente no quesito segurança. Caso não a nossa situação não beirasse essa guerra urbana, minha vontade de partir não fosse tão grande. O problema é que realmente não vejo uma solução rápida o suficiente para esse problema.
Ah… o português do Cal é charmosinho, cheio de “estrangeirices” rs
Carol,
Você quis dizer “esquisitices”, não é?… rsrs
Cada um seu charme
Já que não tenho o jeito bonzinho do brasileiro, posso pelo menos me permitir falar mal e com sotaque… kkkkkk
Beijos.
Cal,
nada de esquisito
“estrangeirices”= “charmosices” rs
Há um texto que gosto muito que fala disto, das cascas que se formam em nós e que não são defesa, nem couraças e que podem nos tornar pedras…
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)
Ótimo texto Carol, e de 72, antes mesmo deste bobzito pensar em existir. É bem por ai mesmo, mas percebo que esse se acostumar é muito mais do brasileiro que de outros povos. Pelo menos dos povos desenvolvidos. O cal reclama da personalidade do francês, e acho que falta essa personalidade aqui. De brigar pelos seus direitos, mesmo que isso signifique perder amigos. Nós temos uma tendência absurda à assumir o deixa disso, e esquecer todas as coisas em poucas semanas. Tanto que a guerra do tráfico já sumiu dos noticiários sem nada ter mudado, a menina do vestido curto continua sendo a culpada por ser agredida segundo a UNIBAN, e um raio(s) de novo derrubou quase todo o país. Esse efeito memória curta é um dos culpado, eu acho, para essa facilidade com que nos acostumamos.
Bob, Carol,
O importante é o que tem dentro dos corações: o vento da revolta. As pessoas acumulam, acumulam e acumulam, até o dia que não dá mais para aguentar…
E neste dia, acontece uma revolução, pequena, média ou grande, e as coisas se regulam, viram o que sempre deveriam ter sido.
Eu sei, pelo que vejo, leio e escuto, que uma revolução está no coração do povo brasileiro. Agora, só falta a coragem. Coragem para mudar, coragem para arriscar, coragem para fazer a vida mais justa, mais sensata, mais coerente, e limpar a sujeira… Quem perderá nessa revolução serão os que ganham nas costas dos outros. Apenas eles…
Abraços/beijos.
[...] This post was mentioned on Twitter by George Pepe Volpão, Bowie Girl. Bowie Girl said: AMO! RT: @casinhadobob: Ah, já ia esquecendo, ontem teve post novo na casinha: http://bit.ly/33JciI [...]
O maior problema é que a nossa elite parece expert em evitar revoluções. Tivemos vários momentos na nossa história em que o Brasil quase explodiu em uma revolução. Mas a nossa elite foi rápida em fazer mudanças cosméticas de modo a acalmar o povo e manter o status quo.
Não sou só pessimista, desde a redemocratização do país, a situação por aqui melhorou muito. Porém, de forma extremamente devagar de modo a não incomodar quase ninguém. Tanto, que acredito que um dia iremos chegar a níveis aceitáveis de problemas, mas isso é bem capaz de ocorrer só depois que eu tiver morrido de velhinho.