Mais um relato das minhas lembranças carnavalescas. Desta vez uma viagem que fiz a Ilha Grande, perto de Angra dos Reis. Recebi o convite para acampar na ilha, com um amigo meu. O rapaz é o estereótipo do carioca, folgado num nível que extrapola todas as escalas. Muito gente boa, cheio de idiossincrasias. Entre elas, dizia ser Deus, o que gerava longas argumentações nerds, o rapaz tinha tatuado até o símbolo do átomo de hidrogênio dizendo que tal tatuagem simbolizava a criação. O que na verdade faz sentido. Também é (era? Não sei se continua sendo) escoteiro e vivia no mato. Assim, me convenceu a passar o carnaval, o primeiro após começar a namorar a Daminha, longe da minha cheirosinha e ir para o mato com ele.Também não entendo essa minha escolha na época.
Eu e o meu irmão mais velho (um dia falo mais sobre ele, o meu melhor amigo, e que já se foi) tínhamos uma barraca e sacos de dormir, assim os peguei e parti para a bendita ilha. Era a segunda vez que cruzava a fronteira do meu estado. Se bem que não a cruzei, tanto já que Angra fica bem perto de São Paulo. E ainda mais indo para o Rio, o que também não me agradava muito devido ao meu espírito exageradamente bairrista naquela época. Mas já estava demonstrando sinais de amadurecimento e não era mais tão ranzinza assim.
Ficamos na Enseada de Palmas. Percebi logo que a rivalidade dos cariocas com os paulistas é mais profunda que a contrária. Eles não paravam de fazer gracinhas por um segundo. O meu amigo conhecia muitas pessoas lá e, no dia seguinte, partimos em direção a praia Lopes Mendes. Na Ilha Grande são poucos os locais em que se permite acampar, e esta praia não era um destes locais permitidos. O que não impediu o nosso grupinho de resolver passar a noite lá. Quase todos, incluindo eu e o meu chapa, dormimos dentro de uma capelinha que ficava a beira da trilha, logo antes de chegar na praia. Dois casais foram dormir nas areias da praia. Estendemos os sacos de dormir no chão da capela e alguns dormiram em redes, incluindo o meu amigo, escoteiro que colocou a sua rede logo acima do meu saco de dormir. O que gera até hoje piadas. Ao amanhecer roubamos o whisky do santo, misturamos em uma granola e tomei o meu café da manhã mais profano e pesado da minha vida.
Neste mesmo dia, fomos para a Enseada do Abraão e de lá partimos para a Praia de Dois Rios, outro local onde é proibido acampar. Esta praia é uma vila militar e é o local onde ficava o famoso presídio onde ficavam os presos políticos na época da ditadura e onde nasceu o CV. Quem está seguindo essas minhas andanças pelo mapa do link acima já deve ter percebido que isso era uma bela andança, ainda mais levando em conta que tal trilha envolvia subir e descer parte do morro incrustado no centro da ilha. Quando estávamos chegando a Dois Rios, o tempo foi escurecendo de tal forma que não ia dar para voltar para o Abraão. E foi dito e feito, ao chegarmos à vila caia um pé d’água que amoleceu o coração dos milicos. Deixaram-nos dormir no salão de festas deles.
No dia seguinte, exploramos as ruínas do presídio, voltamos pela trilha, tomamos banho de cachoeira. Voltamos ao Abraão, conhecemos uma garota russa que me ensinou o único palavrão em russo que sei, e para emendar o nosso tour carcerário, visitamos as ruínas de outro presídio, da época da escravatura. Ou seja, a ilha sempre foi vista como ponto de desova de indesejáveis mesmo. Cansado de andar, peguei uma lancha para voltar ao camping e não agüentei ficar muito tempo acordado no luau.
No último dia, como o filho da puta deste meu amigo ama andar, mais uma longa caminhada. Desta vez, para escalar o ponto mais alto da ilha, o Pico do Papagaio. Desta vez só fui eu, ele e outro perdido. Quase desisti no meio do caminho. Comecei a levar mais a sério o treinamento dos escoteiros. O desgraçado parecia um bode e avançava rapidamente na trilha. Minha sorte é que o outro perdido, também bem fora de forma, conseguiu convencer o nosso “guia” (que até perder a trilha perdeu) a deixá-lo ir na frente. O passo diminui exponencialmente e recuperei o fôlego. Mas como sempre Murphy olha por mim (tudo bem, não tanto quanto olha para a nossa amiga K.), assim que vencemos o Papagaio e olhamos para baixo, só vimos nuvens. Pelo menos o ditado é vero, e descer não doeu tanto quanto subir.
E assim termina mais este breve (ok, eu sei que não foi breve ;p) relato de mais uma das minhas viagens. Onde bebi whisky do santo no café da manhã e o meu amigo pôs literalmente o pé na jaca, onde uma das minhas papetes foi destruída de tanto andar e na qual mais uma vez não comi ninguém (na época a Daminha não era tão liberal). E você, Daminha, pode desistir de apontar que rolou algo a mais entre mim e o cara que acredita ser Deus, você sabe que só somos bons amigos. Até que para um cara que não gosta de viajar e de samba se diverte bastante nos carnavais, né?




Olá Bob,
Realmente muito tens para nos contar! Não sabia é que tinhas ficado com fama de ter dormido com o teu companheiro de jornada. Lol . Fiquei a saber agora.
Mas que sitios tão lindos e paradisiacos. Adorei.
Beijinhos amigo
Bob, vou te falar…
eu simplesmente odeio acampar e esse teria sido o pior carnaval da minha vida!
Odeio andar no meio do mato e adoro dormir no conforto do meu quarto com ar condicionado.
hehehe
Abraços.