Continuação de Sherlock Bob
Ele nos explicou que tinha brigado com os seus antigos companheiros. Mas que ainda não havia mudado e por isso não havia recebido nenhuma das nossas mensagens. Os outros moradores estavam nas suas cidades natais e por isso tínhamos a república só pra nós. Nela também estava um casal de amigos tanto do meu irmão como de R e um hippie que estava fugindo da Bahia com um quilo de maconha, após ter sido confundido por um bandido local.
A situação da república era pra lá de deplorável. R estava comendo um purê de berinjela que ele havia feito uns cinco dias antes. A sua única comida no período. O banheiros estavam em pior estado que muitos dentro de estádios após jogos. Passamos o resto da tarde deixando o local minimamente habitável. Antes de anoitecer, fomos à rodoviária comprar as nossas passagens de volta, pois temíamos beber o dinheiro da passagem.
À noite fomos curtir. Ruas lotadas, cervejas baratas e de fácil acesso e logo estávamos bêbados. Nunca vi tantos postos de venda de cerveja. Qualquer porta aberta era sinal de um posto de venda alcoólico. Os moradores vendiam bebidas das janelas das suas casas. Todos os comércios vendiam cervejas, as marcenarias, papelarias e até farmácias que por sinal tinham a vantagem de oferecem ao lado das cervejas, engov. Era auge do axé naquele ano e fui dormir com “desce na boquinha da garrafa” e acordei com “segura o tcham, amarra o tcham, tcham-tcham-tcham”. Como a casa estava cheia eu e o meu irmão estendemos os nossos sacos de dormir na sala.
No dia seguinte, sábado, fizemos um tour pela cidade, principalmente as repúblicas que, logo descobrimos, costumam alugar seus espaços no Carnaval como albergues. Elas também estocavam quantidades homéricas de bebidas e quase todas possuíam seus próprios alambiques de pinga. A cada república que visitávamos, bebíamos algumas garrafas de cervejas e doses de pinga com mel. Nesse tour pelas repúblicas mais as nossas andanças anteriores acabamos conhecendo quase de cor a cidade inteira.
Para economizar dinheiro para as bebidas, decidimos fazer só uma refeição, além do café da manhã, por dia. Normalmente essa refeição era por volta das 4 da tarde e comíamos como famintos. Também como medida para prolongar o nossos estados alcoolizados, não entramos em nenhumas das igrejas, pois todas cobravam pelas visitas. Todas as nossas fotos, que perdi em alguma das minhas mudanças, eram das fachadas externas.
Nessa segunda noite, descobrímos uma forma de nos manter despertos, mesmo que travados de bêbados, até o amanhecer. Encontramos um local que preparava uma bebida chamada capeta. Em ocasiões futuras voltei a beber tal bebida, mas em nenhum dessas outras vezes ela teve o mesmo efeito. O capeta de Ouro Preto possui uma dose absurda de estimulantes (acho que devia ser o guaraná) que ao mesmo tempo que conseguia nos fazer mais bêbados ainda nos acordava imediatamente. Devia equivaler a uma dúzia de expressos, eu acho. Passou a virar regra, sempre que os nossos corpos começavam a se render, a gente bebia o capeta.
Enquanto dormíamos na sala, alguém bateu na porta. Ao abri-la, dei de cara com um rapaz com uma mochila, indaguei quem ele era e ele disse que era um dos moradores da república. Pelo jeito, todos os moradores retornaram naquele dia, pois as batidas na porta foram se repetindo enquanto tentava dormir. Eu e o meu irmão nos revezávamos pra deixar os donos do local entrar. Quando todos nós acordamos, ouvimos os outros moradores discutindo com R. Aparentemente, ele não tinha avisado a eles que todos nós íamos dormir lá. Fomos expulsos da casa antes mesmo de escovarmos os dentes. R nos levou à casa que havia alugado. Fizemos todo o caminho de volta à praça com o Tiradentes. De lá fomos para a Ladeira João de Paiva, estranhamos, pois não havíamos visto a casa dele naquele fatídico primeiro dia. Começamos a subir, nossos estômagos roncando, continuamos a subir depois que passamos pela casa número 16. Subimos mais, e mais, e mais, e um pouco mais. Depois de sei lá quantos metros vimos outra casa numerada 19. Aparentemente a pessoa que numerou essas casas não sabia que a numeração deveria ser referente à distância em metros da casa ao início da rua e achou normal continuar a numeração após centenas de metros dessa forma.
Andando mais um pouco, entramos na nova casa de R, que se tratava de uma edícula no fundo de outra casa. A luz estava cortada, assim como a água. Não havia móveis. Pelo menos, o dono da casa deixava a gente usar a bica d’água para beber e nos lavarmos. E essa bica foi o que permitiu a gente acordar sem ressaca todos os dias. Pois não havia ressaca que persistia após uma ducha d’aquela água congelante.
Os dias seguintes foram todos similares. Passávamos a parte clara do dia visitando repúblicas, bebendo de graça, conhecendo a cidade e a noite enchendo mais a lata, curtindo a folia, que naquele meu estado de embriaguez fazia até este metaleiro (bem, na época ainda era metaleiro) dançar na boquinha da garrafa e tentar segurar o tcham. No fim, como diziam os Cassetas, não peguei ninguém e muito menos comi alguém. Mas com certeza este carnaval ficou marcado na minha memória como um dos melhores da minha vida.




hummm… beber de graça…rs…
acho que não é bom eu pensar nisso numa segunda né?
tenho o pé no AA..rs..rs..
beijo, boa semana!
Olá meu querido,
Nem sei como te consegues lembrar que foi o melhor carnaval da tua vida… Lol
Perigoso chegar perto do fogo não?Tal quantidade de alcool…e nem uma “aventurazinha”?Deviam ver as miudas a dobrar ou a triplicar, mas isso era bom! Lol
Se dizes que te divertis-te, eu acredito!
Beijinhos